segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Morte I

Às vezes os ossos começam a se roer
Às vezes a pele começa a arder
O corpo sente a dor que não sentem tantos
E as lágrimas riscam o rosto de muitos em prantos

Às vezes o cérebro desliga
Às vezes o olho cega
O músculo fatiga
E a dor pega

E o pulmão erra
E a garganta engasga
O corpo na terra
É o fim de uma saga

O sangue jorra
A pele torra
O sorriso sarcasmo
E a alma marasmo

Último ano de idade
Último vivido pela metade
Primeiro ano de castidade
É o fim da eternidade

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Olha(r)

Olha,
E que tais olhares são esses?
Os teus
Aos meus
Que complicação da nossa relação.
É bom?
É bom.
Será?

Não imaginei de primeira,
Apesar de ter.
Mas não (te) ter.
Olhar de ser
(minha?),
De (te) ser,
De temer.
Será?

Se for
Será?
Mas se for, não vai ter que dizer
"Se foi"?
Sabe?
Porque os olhares
Teus
Aos meus
São estranhos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Coração de vidro

Coração de vidro,
bombeia veneno
e pede antídoto,
espera dor
e procura amigo,
amor,
um segundo de conforto;
um segundo estando morto

Coração de vidro,
procura o reto
e acha o torto,
tem o pulmão cheio de tabaco,
o fígado de álcool
e sempre se termina em caco.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Octógono


eu contra mim
tu contra ti

nós contra o mundo
                    e ele a nosso favor

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Eu Avisei

Olha, a verdade é que escrever é quase igual cagar. Porque quem caga, não caga na hora que quer. E não caga onde quer, também. Quem precisa cagar, precisa cagar e pronto.
E é assim que eu me sinto quando eu finalmente escrevo alguma coisa, sabe? Porque é uma necessidade física, e cada vez que eu coloco um ponto final em cada texto, eu sinto um alívio tão grande que deve valer por umas três cagadas ou mais.
Ah, e tem aquele incômodo de passar dias e dias sem escrever uma linha sequer, e tem também aquela vez que até sai alguma coisa, mas não dá pra falar que você escreveu um texto novo, de fato.
E todas as vezes que você não escreve aquela ideia na hora, e ela acaba indo embora
E sabe-se lá quando ela vai voltar
Se é que ela vai voltar

Por isso que eu sempre ando com um bloco de notas, sabia?
É porque uma vez eu vi um careca da tevê falando, e disso eu não vou esquecer tão cedo:
"nunca se recusa uma ida ao banheiro"
E é isso que eu faço

Porque no fundo é tudo a mesma coisa, não?

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Acidente

Eu tava sentado na mesa. Assim, só sentado. Caneta em uma mão, cabeça apoiada na outra, olhando pra porta. O marrom da porta não significava nada. Mas eu pensava nisso. Não vinha nenhuma ideia à cabeça. Tocou o telefone. A mão da caneta atendeu, deixou ela cair na mesa. Daquele jeito que pinga uma vez com cada ponta, sabe? O telefone na orelha e a voz na cabeça. Um acidente? Ok. Quando? Uhum. O papai? Uhum. Uhum. Morreu? Entendi. Uhum. Ok. Amanhã? Ah sim. Não encontraram né? Não né? De ninguém? Ok. Uhum. Velório só. Tá. Tá bom. Tchau. Meu pai morreu. Um avião sofreu acidente. Ele tava nele. Eu não sabia. Era com a amante. Isso eu também não sabia. Acho que agora eu tenho que fazer alguma coisa, né? Organizar. É, eu acho que as pessoas fazem isso. Organizam. Alguma coisa. O enterro. Mas não tem corpo. O velório. Ok, só o velório. Tem que avisar todo mundo. Todo mundo não, só algumas pessoas. Eu nem sei quantos anos ele tinha. Alguém vai me perguntar isso né? Vai. Ele era jovem. Jovem demais pra morrer assim — como se alguém fosse velho o suficiente pra morrer desse jeito. Mas ele já tava quase doente. Ele bebia muito. E fumava. E batia na mulher. As vezes. Só quando seu time perdia. Isso acontece todos os dias. Pessoas perdendo pessoas. O que elas sentem quando isso acontece? E que horas a gente chora? É pra chorar, não é? Ok, vou chorar agora.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Divã do Monstro

Tempo demais a só
teorizo:
Tentar ser profundo
num mundo de águas rasas
é a maneira que me iludo

Quem dera ser terreno
até alado
Não rastejar pelos abismos
cantos sombrios das questões
ermos mal iluminados

Vez ou outra
excepcionais ocasiões
lança-se o monstro à superfície

Helenas
Marias
Alices...
Com mulheres, monumentos
se depara

O Querubim
notando o alvo exótico
dispara.
Abate-se sobre Leviatã
avessa e excessiva ternura
que encarcera-o
impedindo seu retorno
ao repouso nas fissuras

Agonizante
a ternura acumulada
satura-se
metamorfoseando-se em ira

"Que sentido há
em decompor o Ego
lhes expôr o pouco que me resta
Se como lança é cravada a dúvida:
À todos amam
ou apenas me detestam?  "